Presidente do STM debate impactos da pejotização e da inteligência artificial no mundo do trabalho em evento na USP

12/06/2026
Presidente do STM debate impactos da pejotização e da inteligência artificial no mundo do trabalho em evento na USP
Presidente do STM durante sua palestra na USP

Durante palestra de encerramento do III Encontro Nacional da Rede Internacional de Pesquisa em Constitucionalismo, Trabalho e Direitos Humanos Sociais (RIUPE), realizado no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), nesta sexta-feira (12), a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, promoveu uma reflexão sobre os impactos das novas formas de contratação e do avanço das tecnologias digitais nas relações laborais contemporâneas.

O evento teve como tema central “O Presente e o Futuro do Trabalho: Desafios do Direito do Trabalho”. A ministra iniciou sua exposição, intitulada “Entre Contratos e Algoritmos: Pejotização, Inteligência Artificial e Proteção Social do Trabalho”, com uma citação ao clássico filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, para estabelecer um paralelo entre os desafios enfrentados pelos trabalhadores durante a Revolução Industrial e aqueles observados atualmente em um cenário marcado pela automação, pelas plataformas digitais e pela inteligência artificial.

Segundo a ministra, as transformações tecnológicas vêm redefinindo as formas de organização do trabalho e, ao mesmo tempo, ampliando debates sobre proteção social, dignidade humana e garantias trabalhistas.

Nesse contexto, destacou que a expansão do fenômeno da pejotização, caracterizado pela contratação de profissionais como pessoas jurídicas em substituição aos vínculos regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), está relacionada a fatores como a reforma trabalhista de 2017, o crescimento do regime de Microempreendedor Individual (MEI) e a consolidação das plataformas digitais.

A ministra também abordou os possíveis reflexos econômicos e sociais da pejotização, entre eles, o impacto sobre o financiamento da seguridade social, do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema S e de programas habitacionais sustentados por recursos provenientes do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Outro ponto que destacou em sua palestra foi o julgamento que será realizado pelo Supremo Tribunal Federal sobre a licitude da pejotização e a competência da Justiça do Trabalho para examinar eventuais fraudes em contratos dessa natureza. Para a ministra, a controvérsia ultrapassa os limites do debate jurídico e envolve questões econômicas, sociais e institucionais.

Inteligência artificial e o futuro das profissões

Na segunda parte da conferência, a presidente do STM analisou os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho, com influência em diversos setores. Ao mencionar estudos da Organização Internacional do Trabalho e da Microsoft, destacou que milhões de trabalhadores em todo o mundo poderão ter suas atividades transformadas pela automação, especialmente em ocupações relacionadas ao processamento de informações e à produção intelectual.

Ela ressaltou, contudo, que o avanço tecnológico não deve ocorrer em detrimento dos direitos fundamentais dos trabalhadores. Defendeu a necessidade de regulamentação da inteligência artificial e mencionou o Projeto de Lei nº 2.338/2023, que propõe a criação de um marco regulatório para o desenvolvimento e o uso da tecnologia no Brasil.

"Se, na narrativa de Chaplin, o operário é absorvido pela máquina e incorporado à lógica do capital, assiste-se, hoje, à captura do trabalhador pela abstração dos algoritmos em meio ao fragmentar das garantias sociais", afirmou a ministra. 

Para Maria Elizabeth, o principal desafio contemporâneo consiste em conciliar inovação, eficiência econômica e proteção social. Para ela, a evolução tecnológica deve estar subordinada a princípios éticos capazes de preservar a dignidade humana e garantir condições justas de trabalho.

"E, talvez, seja este o maior desafio de que se tem testemunho: conciliar a velocidade das transformações com o ritmo modesto com que evoluem as instituições; encontrar o equilíbrio entre a eficiência e os valores que não se deixam conduzir pelas métricas da produtividade", concluiu. 

O STM esteve representado no evento também pela assessora da presidência Mariana Ferrer, que abordou a questão dos diversos tipos de violência impostos aos trabalhadores na sociedade moderna. "Os fenômenos contemporâneos de violência já não se acomodam dentro das fronteiras tradicionais dos ramos do Direito. A violência atravessa o Direito Penal, Constitucional, os Direitos Humanos, o Direito Digital, o Administrativo e, de forma muito significativa, o Direito do Trabalho", afirmou Mariana. 

Na sua concepção, o Direito do Trabalho foi pioneiro na compreensão de que determinadas formas de violência não se manifestam necessariamente por agressões físicas ou atos isolados:

"Ao longo das últimas décadas, (o Direito do Trabalho) desenvolveu instrumentos teóricos e normativos para compreender fenômenos como assédio moral, assédio sexual, violência psicológica, discriminação estrutural, violência organizacional e adoecimento decorrente das relações de poder. Essa experiência revela-se extremamente valiosa para o Direito das Vítimas", disse a assessora, que fez um agradecimento especial a um dos palestrantes do evento, o desembargador e professor Guilherme Guimarães Feliciano, conselheiro do Fórum Internacional de Direito das Vítimas (INTERVID), idealizado e criado por ela. 

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